Quem foi Vieira Souto: o engenheiro por trás do nome da avenida mais conhecida de Ipanema

Fim de tarde em Ipanema. Turistas fotografam o pôr do sol do Arpoador, corredores passam pela ciclovia e alguém confere no celular o nome da avenida à beira-mar: Vieira Souto. Pouca gente que caminha por ali sabe quem foi o homem homenageado. A placa não conta, mas a história dele ajuda a entender como o Rio virou a cidade que conhecemos hoje.

A trajetória de Luiz Raphael Vieira Souto, reconstruída por pesquisadores da UFRJ, atravessa a engenharia, o ensino e a administração pública.

Um carioca do século XIX

Luiz Raphael Vieira Souto viveu no Rio de Janeiro entre 1849 e 1922, segundo estudo do Programa de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele nasceu numa cidade ainda sem saneamento adequado, com água canalizada insuficiente e ruas que mal começavam a receber calçamento. Quando morreu, o Rio tinha bondes elétricos, a Avenida Central e uma ligação entre o centro e a zona sul pela Avenida Beira-Mar.

Entre um momento e outro, Vieira Souto participou diretamente de muitas dessas mudanças, tanto como engenheiro quanto como formador de novas gerações de profissionais.

A formação na Escola Central

Em 1868, ele ingressou na Escola Central, a primeira instituição do país dedicada com exclusividade ao ensino da engenharia civil. Os alunos eram chamados de centralistas, para deixar claro que estudavam engenharia, embora estivessem submetidos a um regimento militar. O nome tinha inspiração francesa: a École Centrale de Paris, criada em 1828, formava engenheiros civis, e seus estudantes se tratavam por centralien.

Em 1871, Vieira Souto recebeu o grau de bacharel em ciências matemáticas e físicas. No ano seguinte, cursou o sexto ano para se tornar engenheiro civil e obteve aprovação plena na cadeira de economia política, estatística e princípios de direito administrativo. Essa disciplina marcaria sua carreira.

Anos depois, na tese de 1880, ele defenderia que o título de engenheiro civil, fruto de uma longa série de esforços, precisava ser reconhecido pelo governo, e que a profissão devia ser regulamentada. O valor de um título de curso superior segue em debate até hoje, como mostra o texto sobre a importância do diploma superior e como confirmar sua validade.

O professor da Politécnica

Em 1876, Vieira Souto fez parte de um grupo de novos professores da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, sucessora da Escola Central. Em 1880, disputou com outros oito candidatos o concurso para a cátedra de economia política, direito administrativo e estatística, cátedra deixada pelo Visconde do Rio Branco, e alcançou a primeira colocação.

A tese do concurso já revelava o estilo de Vieira Souto. Ele defendeu o uso da estatística para conhecer o Estado e respondeu a cinquenta e sete perguntas, enquanto os concorrentes responderam, no máximo, a trinta e seis. Por conta própria, ainda incluiu um programa para a disciplina, que passou a ser adotado de 1880 a 1896.

Como economista, defendia que o Brasil deveria basear seu crescimento na industrialização, com política protecionista. Publicou críticas no jornal Correio da Manhã às medidas do ministro Joaquim Murtinho.

O engenheiro que enfrentou uma comissão do governo

Em 1874, o governo imperial nomeou uma Comissão de Melhoramentos, formada por engenheiros experientes como Pereira Passos, para propor obras de saneamento e urbanização. O jovem Vieira Souto publicou catorze artigos no Jornal do Commercio criticando as propostas, sobretudo as soluções para o Canal do Mangue. As críticas foram tão consistentes que os planos da comissão acabaram abandonados, e o engenheiro ganhou notoriedade.

Obras que mudaram o Rio

Na prática profissional, Vieira Souto foi o que se chamava na época de engenheiro enciclopédico: alguém capaz de atuar em áreas muito diferentes. Sua lista de trabalhos inclui:

  • Morro do Senado: em 1887, associou-se ao engenheiro Sampaio e iniciou o desmonte do morro.
  • Avenida Beira-Mar: dirigiu a construção da via, considerada a mais importante da cidade depois da Avenida Central.
  • Prefeitura: foi diretor de obras do município.
  • Morro do Castelo e Exposição do Centenário: participou das obras ligadas a esses dois marcos do início do século XX.
  • Habitação popular: estudou o problema dos cortiços, que considerava os principais focos de epidemias.

Um nome ligado às instituições da engenharia

Vieira Souto também atuou fora das obras. Foi um dos fundadores do Clube de Engenharia, integrou o Instituto Politécnico Brasileiro, onde se destacou na campanha pela regulamentação da profissão, e participou da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, do Centro Industrial do Brasil, da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e da Sociedade Nacional de Agricultura. Foi ainda redator da Revista Brasileira de Engenharia.

No necrológio publicado em 1922, Getulio das Neves resumiu a dificuldade de definir o colega: professor, cientista, engenheiro, administrador, propagandista ou escritor, em qual dessas esferas ele teria sido maior?

A família e o legado

Vieira Souto era filho de Luiz Honório Vieira Souto e Francisca de Paula Cunha. Casou-se com Carlota Souto de Andrada Vandelli, bisneta de José Bonifácio de Andrada e Silva. Uma das filhas, Olga, casou-se com Ignácio Azevedo do Amaral, que foi diretor da Escola Nacional de Engenharia e reitor da Universidade do Brasil.

O estudo da UFRJ lembra que o reconhecimento da importância de Vieira Souto para a cidade se traduz justamente na concessão do seu nome a uma das avenidas mais importantes da zona sul carioca. Na mesma avenida está o Vie 432 em Ipanema, prédio residencial novo da Balassiano Engenharia, de frente para a praia.

Por que vale conhecer essa história

Nomes de ruas funcionam como uma aula de história a céu aberto. Saber quem foi Vieira Souto muda a forma de olhar para a orla de Ipanema: por trás da avenida famosa está um engenheiro que ajudou a sanear, abrir e organizar a cidade, e que dedicou boa parte da vida a formar outros engenheiros.

A homenagem, portanto, fala mais de engenharia urbana do que de praia: o nome na esquina lembra alguém que tratou o Rio como um projeto a ser construído, e não apenas como um cenário.